Caminhos do Vinho: Vinícola Fontanari

O blog Movido a Vinho inaugura aqui sua seção de viagens e enoturismo. Vamos percorrer alguns dos caminhos que ligam o vinho, sua produção sua cultura. Mais que encher nossas taças, queremos buscar a identidade e a personalidade do vinho, aprender sobre a história das pessoas que fazem dessa bebida o que ela é. Nossa primeira visita foi especial: fomos à Casa Fontanari, vinícola familiar localizada na parte rural de Bento Gonçalves.

Fim de tarde nos vinhedos da Casa Fontanari

Fim de tarde nos vinhedos da Casa Fontanari

A Casa Fontanari faz parte do roteiro dos “Caminhos de Pedra“, que reúne algumas das paisagens mais belas do interior de Bento Gonçalves.

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A região tem diversas construções históricas

São pouco mais de duas horas de viagem saindo de Porto Alegre. Eu e minha amiga fotógrafa Gabi DiBella chegamos por volta das 14h, depois de uma parada para almoçar. Passeio agradável para quem gosta de dirigir, sendo possível fazer a viagem pela manhã, bebericar algo no almoço e voltar no fim da tarde sem correr riscos com o álcool. Apesar do caminho ser bem sinalizado, sugiro usar um GPS para facilitar a viagem e explorar bem o local. No final deste post deixo ainda algumas orientações para quem deseja facilitar a viagem.

Victor Fontanari junto às videiras de Merlot

Victor Fontanari junto às videiras de Merlot

Quem nos recebeu foi Victor Fontanari, mais jovem membro da família a abraçar o projeto de fazer vinho. Do entusiasmo dele nasceu a ideia de acolher os turistas no local e de dar às garrafas um rótulo mais comercial – ainda que o conteúdo permaneça fiel às preferências de seus antepassados vinhateiros. A vinícola busca respeitar ao paladar da região, ao mesmo tempo em que agrega técnicas modernas para dar qualidade ao vinho. Victor resume a proposta da casa: “A gente quer fazer o vinho do jeito que gosta. Já chamamos enólogos para analisar o vinho. Eles olham e dizem que tem de deixar mais comercial. Mas nós não queremos fazer isso!”. Nesse momento ele pedia licença e corria para o setor de produção – onde tinha que resfriar os tonéis para receber o mosto de uvas brancas. A colheita da uva Moscato havia encerrado no dia anterior e alguns tanques já estavam cheios, dando início à maceração. Muito trabalho para todos, que corriam para organizar essa etapa fundamental da produção.

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Vista lateral, por fora, do local onde é feita a degustação

Victor nos acolheu em meio à função, e nos deixou espiando o local antes de retornar. O céu, que começou o dia aberto, estava agora cinza e chovia uma garoa leve. Na volta, ele foi logo nos levando para a degustação – que é feita ali mesmo, na parte antiga (de pedra) que divide espaço com outra mais moderna (de concreto). Vou deixar para escrever dos vinhos no final – vale contar um pouco mais do lugar antes. A Vinícola Casa Fontanari é resultado de duas histórias: por um lado, a da colonização italiana, que transparece em toda a região – na arquitetura, na comida, na linguagem. Por outro, de um jeito mais particular, a história da própria família, que no compasso de quatro gerações chegou à proposta atual.

Deck e vista na entrada da Vinícola

Deck e vista na entrada da Vinícola

“Meu biso, Guilherme Fontanari, foi o primeiro diretor-presidente e um dos fundadores da Cooperativa Aurora”, conta Victor. “Já meu avô, Euclídio Fontanari, não deu seguimento à tradição quando jovem. Depois dos 50 anos, ele decidiu voltar a fazer vinho.” O terreno onde a vinícola se localiza foi adquirido em 1982, materializando um desejo de Euclídio de manter vivas as raízes da família através da produção de vinho. O lugar foi bem escolhido: fica perto da divisa com Pinto Bandeira, terroir gaúcho que é tido por alguns como berço dos melhores espumantes do país. Além disso, a paisagem é belíssima (e hoje eles tem um belo canto para quem quiser sentar e apreciar a vista). No início, a produção era artesanal e familiar. “Quando eu era criança, meu pai fazia eu e minha irmã pisarmos as uvas”, conta Victor. A ideia não era usar essas uvas na produção, mas mostrar um pouco da cultura italiana para as crianças. Em 1994 Juliano Fontanari, pai de Victor, decidiu encontrar alguém para cuidar permanentemente das videiras. Eles contrataram Mauro Morandi, que agregou experiência no trato das vinhas. Mauro, que havia terminado uma parte do trabalho, veio trocar de lugar com Victor. Ele nos levou para olhar de perto algumas das parreiras que ficam próximas à entrada e falou do cuidado diário com as uvas. Somando uvas de vinho e de suco, nos contou que em 1994 foram produzidos 3 mil quilos – contra quase 100 mil esperados para a safra de 2015.

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Mauro Morandi, orgulhoso das uvas que faz crescer

A proposta de vender o vinho foi ganhando corpo aos poucos. A própria marca da empresa é recente: em 2012 que Victor formalizou a existência da Vinícola Casa Fontanari com a criação de um CNPJ. Esse passo marcou um novo momento. Mauro hoje é sócio da Casa Fontanari e compartilha com Victor o desafio de modernizar a produção, mantendo a personalidade do vinho.

Vista dos vinhedos, em direção ao Vale

Vista dos vinhedos, em direção ao Vale

A chuva tinha parado e subimos para dar uma volta nos vinhedos. Fomos de carro uma primeira parte e deixamos para subir o restante a pé. Apesar de cansativa, a caminhada pelo local vale a pena e combinamos de voltar em um dia de mais sol. Lá de cima, é possível ver as casas e o vale vizinho por entre as folhas das parreiras. Há ainda, ao lado dos vinhedos, uma pequena capela de pedra. Nesse ponto, a vista das espaldeiras se soma à das araucárias, que se elevam mais altas a algumas centenas de metros. Acho que essa característica é exclusividade da Serra Gaúcha, mas podem me corrigir se eu estiver errado. Descemos a tempo de ver a finalização do trabalho de Victor e Mauro, que terminavam de passar as uvas pela desengaçadeira. A grande cuba de inox onde se daria a maceração estava quase cheia.

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J. Fontanari apreciando o fruto do trabalho da família

Junto a eles, quem estava dando uma mão era Juliano Fontanari, pai de Victor, médico e vinhateiro. Apesar do entusiasmo e do bom humor, ele foi rápido em dizer que as perguntas sobre a vinícola eram com seu filho: “Agora é a vez dele. É ele quem sabe o que está fazendo”. Uma aposta clara na nova geração. Victor contou um pouco mais sobre os projetos atuais. Eles estão plantando novas mudas: Nebbiolo, Syrah, Ancelotta, Malvásia Bianca e Marselan. Além disso, estão replantando algumas das variedades que já possuem, revendo o espaçamento entre as vinhas, mudando as espaldeiras, trocando os barris. Tudo num esforço para ganhar qualidade. Quase por deslize, em meio ao esforço para ser formal diante dos visitantes, Victor deixa escapar um “tio Mauro”. A Serra tem outros laços além do sangue, e o vinho é um deles. Apesar da proximidade, Victor e Mauro têm visões diferentes sobre a produção. Mauro parece mais apegado às técnicas tradicionais, quer plantar mais e aumentar a produção. Já Victor está buscando modernizar a vinícola, mudando práticas que já estão enraizadas. O resultado desse embate, você conhece bebendo o vinho deles!

Segue nossa lista de provas:

Experimentamos primeiro um Trebbiano Toscano, um vinho branco diferente daquilo ao qual estamos acostumados nos varietais brasileiros. Feito com uma uva de sabor muito leve e incomum no país, o vinho passou 56 dias em barricas de carvalho americano para ganhar corpo e gosto. O resultado é uma bebida interessante, onde predominam as notas que vem da madeira. Só provando!

Depois passamos para o Cabernet Franc. Um vinho de corpo médio e boa acidez, que eu adoraria tomar com uma macarronada e um molho de tomate. A uva pode ser francesa, mas a proposta tem a jovialidade dos vinhos italianos.

Por último, conhecemos o Merlot da Casa Fontanari (2014). A presença de madeira nele é marcante, o que concede a ele uma estrutura semelhante à de alguns vinhos chilenos. Um bom vinho, para se beber em companhia de uma linguiça ou carne vermelha temperada.

——–

 Quando ir, como ir – A viagem de ida para quem vem de Porto Alegre pode ser via Bento Gonçalves ou Caxias. Pouco antes de chegar a uma dessas cidades, basta tomar a chamada Rota do Sol, trecho da RS-453 que liga os dois municípios via Farroupilha. Nós optamos por usar o mesmo caminho que leva ao Vale dos Vinhedos, por Bento. Após passar Garibaldi, pegamos a RS-453 à direita e logo a RS-444 à esquerda. Em seguida, descemos a Estrada do Barracão, à direita. Uma vez ali, foi só seguir as belas curvas do caminho e acompanhar a numeração (bem sinalizada) rumo à parada nº 59. Na dúvida, liguem para a vinícola: (054) 3455-6257. Segue o mapa:

Quem não visualizar a vinícola pode acessar neste link.

8 comentários sobre “Caminhos do Vinho: Vinícola Fontanari

  1. Pingback: Um ano de blog: Caminhos do Vinho | Movido a Vinho

  2. Olá Álvaro, parabéns pelo post, nos fez querer voltar. Lurdes e eu estivemos em 2014 nos Caminhos de Pedra e foi uma surpresa a Salvatti e Sirena, mas não tinha ainda, recebendo turistas, a Fontanari. Este ano fomos e encontramos tudo como vc relatou, até a pérgola e ainda os sanitários dentro da pipas. Como vi um alambique de cobre perguntei sobre ele e disseram que o nono fazia conhaque, até o provei e levei uma garrafa (lembra os armagnac franceses), mas o lugar é de vinho e a estrela para nós foi a mistura de trebbiolo e moscato, incrivelmente frutada, refrescante e levemente amadeirada. Não provamos o trebbiano toscano, fica para a próxima.
    Apaulo Alexandre -SP

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