Um brinde ao Núcleo Cultural do Vinho

Visitei na sexta-feira 13 de março a Fundação ECARTA de Porto Alegre, que possui um Núcleo Cultural do Vinho. Foi a oportunidade de conhecer os eventos regulares que eles promovem e, de quebra, ouvir o experiente Rinaldo Dal Pizzol discorrer sobre a história e cultura do vinho no estado. Este é o tema do livro Memórias do Vinho Gaúcho, que ele acaba de lançar.

Rinaldo Dal Pizzol autografa seu livro da Fundação ECARTA

Rinaldo Dal Pizzol autografa seu livro na Fundação ECARTA

A visita ao Núcleo Cultural do Vinho não foi programada para o blog, mas a experiência foi digna de nota! Se um dos propósitos do Movido a Vinho é descrever a cena dos vinhos em Porto Alegre, não podia me furtar a escrever este post.

Os encontros da fundação são regulares e têm por objetivo difundir a cultura do vinho em Porto Alegre. Eles promovem palestras e degustações, organizadas pela enóloga Maria Amélia Flores, que convida vinícolas do Rio Grande do Sul para apresentar sua proposta e seus produtos.

Não posso falar do núcleo com muita propriedade, visto que somente estive presente neste evento. Mas que encontro! A palestra foi encorajadora e centrada em uma ideia: que o vinho não é um produto agrícola, e sim cultural. A partir dessa premissa, Rinaldo narrou a história da vitivinicultura no Brasil, que serviu como pano-de-fundo para os vinhos provados na noite.

Rinaldo se entusiasma ao falar da produção de vinho no Rio Grande do Sul

Rinaldo se entusiasma ao falar da produção de vinho no Rio Grande do Sul

Seria presunção tentar resumir a história contada pelo Rinaldo, porém quero tentar trazer um pouco dela para contextualizar os vinhos. Por onde começar… Os imigrantes alemães que vieram na primeira metade do século XVIII trouxeram suas mudas de uva, seguidos pelos italianos nas décadas seguinte. Mas a produção era doméstica, sem continuidade ou pretensão mais ampla. Era, no sentido literal, um produto cultural dos imigrantes, uma forma de manter vivos os hábitos de sua origem.

A primeira experiência comercial a ser reconhecida em escala mais ampla – nacional e internacionalmente – foi a produção de espumantes pela vinícola Peterlongo, no início do século passado. Para simbolizar a importância desta bebida no Estado, a degustação começou com um espumante Dal Pizzol brut.

Desde essa época houve algumas experiências contínuas com vinhos, em especial usando variedades italianas de uva. Estas foram ameaçadas por fatores diversos, a exemplo de uma crise de superprodução nos anos 1930. Mesmo assim, distante das Guerras Mundiais que afetaram a produção europeia, o Brasil atingiu certo nível de qualidade entre os anos 1940′ e 1960′. Nesse momento da história começaram os “presentes” do Rinaldo e da Maria Amélia.

Degustamos um Bernard Tailland reserva especial 1968. Esse rótulo, lançado em 1962, foi marco na consolidação dos vinhos finos no Brasil, com cepas italianas. Totalmente surpreendente: um vinho indisponível no mercado, trazido pelo próprio Rinaldo de sua adega particular para reviver uma fase distante (quase meio século!) de nossa viticultura. O tempo aportou ao vinho aromas de Porto, muito agradáveis, e embora tivesse perdido quase todo o corpo apresentava uma complexidade para a qual não tenho palavras.

Eles existem! Vinhos brasileiros dos anos 1960' podem ser raridades, mas existiram e demonstram uma longevidade surpreendente

Eles existem! Vinhos brasileiros dos anos 1960′ são raridade, mas alguns sobrevivem

A partir do fim dos anos 1960, as videiras foram trocadas por cepas francesas – a exemplo dos vinhos da vinícola Forestier e da linha Clos des Nobles (topo de linha da Cooperativa Aurora). Vieram então exemplares de ambos: dois Cabernet Franc,  um Clos des Nobles 1969 (engarrafado pela Aurora PARA o Rinaldo, com direito ao nome dele no rótulo) e um Forestier 1972. Estes dois não resistiram tão bem ao tempo, tendo perdido quase todo o corpo e o álcool, mas guardando alguns aromas da uva.

O trajeto dos anos 1970′ até agora foi de profissionalização e qualificação do vinho brasileiro – primeiro lentamente e depois, nos anos 1990′, a passos largos. Segundo Rinaldo, “o problema maior hoje não é produzir vinho, mas ‘mercadear’ o vinho – fazer com que ele circule e seja consumido.” Vieram então os vinhos mais atuais: tomamos o Cabernet Franc atualmente produzido pela vinícola Dal Pizzol – o “Do Lugar”, um varietal potente e equilibrado, que serviu de comparativo aos dois vinhos anteriores. Imediatamente depois, tomamos mais dois rótulos de grandes safras recentes, que reforçaram a tese do aperfeiçoamento da viticultura brasileira: o Millésimè 2004 da Aurora e o Salton Desejo 2005, ambos da adega da Maria Amélia.

Vinhos trazidos pelo palestrante surpreenderam!

Line-up do evento: vinhos trazidos pelo palestrante surpreenderam!

A degustação, havia terminado, mas Rinaldo fez questão de apontar uma página ainda mais atual do vinho no Rio Grande do Sul: o movimento recente de tecnificação da produção, no Brasil e no mundo, tem exigido o estreitamento do produtor com uma identidade que faça sentido ao público. Esse esforço se refletiu, no Brasil, pelo fortalecimento de novas regiões que souberam valorizar suas raízes, a exemplo dos vinhos produzidos na Campanha Gaúcha. “Eu fico muito feliz vendo na região da Campanha não apenas vinhedos, mas projetos com tipicidade. É o encontro da vinha com o gaúcho – um vinho de bombacha é um gaúcho vinhateiro”, brinca Rinaldo.

Eu disse que este blog não seria de eno-ostentação e juro que não é meu objetivo falar do que tomei ou deixei de tomar. Se mencionei os vinhos acima, é por causa do que eles contaram. Simples assim: foi “beber para crer”, uma chance de testemunhar a história contada pelo Rinaldo não apenas através das palavras, mas com todos os sentidos que o vinho proporciona.

O evento com o Rinaldo não deve se repetir tão cedo, mas o Núcleo Cultural do Vinho segue em atividade e tem o próximo encontro marcado para dia 31 de março, com a Quinta Don Bonifácio. Quem quiser saber mais, pode se informar no link ao lado.

8 comentários sobre “Um brinde ao Núcleo Cultural do Vinho

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