Movido a Vinho: Casa Seganfredo

Neste post vamos contar a história da Casa Seganfredo, vinícola localizada no município de Gramado e que está se preparando para receber visitantes a partir de maio de 2015. Com uma estrutura moderna para acolher famílias e pequenos grupos, eles abriram as portas para mostrar a casa ao Movido a Vinho antes mesmo de entrar em atividade. Que tal nos acompanhar nesse passeio?

Nano vinícola: produção de 30 mil garrafas permite atenção redobrada aos detalhes

Produção limitada a 30 mil garrafas permite grande atenção aos detalhes

História recente, raízes profundas

Não é todo dia que se pode observar o nascimento de uma vinícola, vê-la tomando forma e conhecer as pessoas empenhadas em fazer desse projeto uma realidade. Como bom fã do enoturismo, fiquei entusiasmado: a história da Casa Seganfredo está ainda em construção, viva no pleno sentido da palavra. Da mesma forma, fico muito feliz em compartilhar esse capítulo introdutório na nossa seção Caminhos do Vinho.

Embora a Serra Gaúcha já seja reconhecida pelos seus vinhos, a localização desta vinícola foge da concentração nas redondezas de Bento Gonçalves, Garibaldi e Caxias. A propriedade fica perto da entrada de Gramado e foi adquirida pela família há 15 anos. Os vinhedos – 5,5 hectares em espaldeira – começaram a ser plantados há cerca de dez. Já a produção oficial de vinhos e espumantes começou somente em 2013.

O terreno conta também com algumas vinhas quase centenárias de uvas americanas – que continuam produzindo até hoje. São um atrativo que encanta quem caminha pela vinícola. Além disso, fazem pensar no potencial da região.

Casa colonial centenária fica localizada na vinícola

Casa colonial centenária fica localizada na vinícola.

A ideia de sair da zona mais conhecida não foi planejada. Paulo e Ana Seganfredo se apaixonaram pela propriedade, que além das vinhas antigas conta com uma bela casa de estilo colonial. O local vinha sendo usada como casa de campo por uma associação, até que o casal conseguiu comprá-lo. No início eles não tinham maiores pretensões, mas foram sendo seduzido pela ideia de multiplicar as videiras da propriedade.

Ao falar sobre a decisão de investir no vinho, Seganfredo brinca: “Um amigo nosso uma vez disse: ‘Tem que escutar a terra e ouvir o que ela pede’. A gente escutou, daí resolveu plantar uva mesmo assim!” Quem vê as parreiras verdejantes no início do outono até estranha o comentário – a graça está em saber que as uvas de suco se adaptaram pior que as de vinho.

Vinhas de Isabel nonagenárias são um dos atrativos da propriedade.

Ramos de Isabel plantados a mais de 80 anos são um dos atrativos da propriedade.

Eles primeiro tentaram variedades de uva de mesa, mas elas não se desenvolveram tão bem quanto as vinhas mais antigas. Depois, arriscaram mudas europeias com muito sucesso. Atualmente, os vinhedos viníferos incluem Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Chardonnay e Montepulciano – uma variedade mais rara no Brasil, que remete à região de origem da família na Itália.

O projeto de fazer vinho transformou o lugar de descanso em projeto de trabalho. Embora ambos tenham compromissos em Porto Alegre, Paulo e Ana vão todas as quintas-feiras à vinícola para cuidar da propriedade e dos vinhos – trabalhando ali de sexta a domingo. Sempre que possível, contam com a ajuda dos filhos, genros e nora. Para o restante da semana, há dois funcionários que moram no local para cuidar dos vinhedos.

Integração com a Serra

Nano vinícola: cada tanque abriga um vinho diferente

Nano vinícola: cada tanque abriga um vinho diferente.

A casa que abriga a produção e que irá receber os grupos (primeira foto na abertura deste texto) foi construída com uma proposta mista: por dentro, a tecnologia é a mais moderna a que tiveram acesso. Por fora, a construção tenta respeitar a terra e a tradição local, fazendo uso de materiais (pedras e madeira) extraídos dali mesmo. Para dar vida a essa proposta, foram cerca de 20 licenças ambientais e comerciais que tiveram de ser obtidas junto a diferentes níveis do governo.

A arquitetura procura estar em sintonia com o terroir, respeitando o solo e a vegetação de araucárias nativa. Para completar a integração com o ambiente, a construção inclui um amplo sistema de cisternas, que recolhe a água da chuva e usa na irrigação dos parreirais.

Vista da Serra inclui na mesma paisagem os vinhedos e parreirais.

Vista da Serra a partir da vinícola: paisagens típicas do Brasil.

Após a abertura, planejada para maio, o casal pretende se dividir para receber os visitantes pessoalmente, pelo menos nos primeiros meses. Da mesma forma como nos acolheram, será a oportunidade de compartilharem com mais gente o fruto de seu trabalho e descobrir a reação das pessoas diante da vinícola.

Vinhos e espumantes

Mas acho que devemos também falar um pouco sobre o vinho que eles produzem, não?

O espumante é todo fabricado pelo método tradicional (champenoise). Uma prensa artesanal é usada para extrair o mosto, sendo a primeira fermentação realizada em tanques de inox e a segunda em garrafa. O local conta ainda com uma câmara fria para o dégorge (retirada de sedimentos e adição do licor de expedição, seguido pela colocação da rolha). Além de ostentar o nome da própria Casa Seganfredo, o espumante vem em uma garrafa elegante para fazer jus ao conteúdo. Eu já havia provado antes da visita: é um produto encorpado e com personalidade, de pouquíssimo açúcar e acidez pronunciada.

Para os tintos, a vinícola conta com equipamento para termovinificação – técnica que consiste em elevar a temperatura para extrair o mosto antes de iniciar a produção do vinho. “No Chile usam bastante. Dá mais trabalho e gera mais gastos, porém é bom para buscar um vinho de melhor qualidade”, conta Paulo.

Rótulos trazem a tona a identidade da família e suas raízes italianas.

Rótulos trazem a tona a identidade da família e suas raízes italianas.

Os nomes dos vinhos produzidos remetem à história familiar. A cor escura do Cabernet Sauvignon, por exemplo, serviu de inspiração ao nome “Barbatoni”, que é uma referência ao tio-avô. Ele se chamava Antônio e usava uma imensa barba negra, motivo pelo qual foi apelidado de Barba-toni.

Já a linha “Vacamora” é uma homenagem ao avô Cirillo Seganfredo, que veio da Itália com 6 anos e foi morar em Nova Prata. Ao final da adolescência, ele voltou à Itália para prestar serviço militar. No período que passou lá, foi inaugurada a estrada de ferro que ligava Vicenza a Maróstica – a “Vacamora”. Ele participou e venceu a primeira edição de uma corrida realizada sobre os trilhos do trem, trajeto que hoje é palco de uma famosa competição de ciclismo.

A cultura do vinho pode tomar muitas formas. Neste caso, ela surge como projeto familiar, um empreendimento que tem menos a ver com o lucro do que com a enunciação de uma identidade. Essa proposta transparece na fusão das técnicas modernas com o resgate da história familiar, esforço visível na apresentação dos produtos e da própria vinícola. Ela se nota, igualmente, no entrosamento do casal, que encontrou uma paixão comum no estudo do vinho.

Linha Belverdere, nº 600

Se a descrição não é suficiente, tenho certeza que as fotos mostram que o local merece uma visita. Vamos ver se ajudamos vocês a chegarem lá!

Embora esteja em Gramado, a vinícola não apareceu no Google maps… Ela está localizada próximo à RS 115 (estrada que chega na cidade via Taquara). Logo após passar o pórtico e entrar em Gramado, é necessário cruzar a estrada (há um retorno para isso) e descer a primeira rua asfaltada. De lá, segue-se reto até a primeira rotatória (cerca de 400 metros adiante), dobra-se à esquerda e segue-se a estrada até uma capela (mais 600 metros), identificável pela reprodução de uma Nossa Senhora em mosaico. Nesse ponto é preciso descer a estrada de chão batido à esquerda, seguindo por mais 800 metros.

Deixo as direções para facilitar, mas eles prometeram que até a abertura terão placas instaladas para orientar as visitas.  Na dúvida, liguem e perguntem diretamente a eles: (51) 3333-2255 e (51) 3330-7704!

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Entre roseiras e araucárias, a Casa Seganfredo vale um desvio para quem visita Gramado

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