Sangue, suor e vinho – um intervalo poético nessa vida de blogueiro

Uau! Lá se vai meio ano de blog e percebi que me dei pouco (ou nenhum) tempo de reflexão nesses últimos meses. Acho que cabe um parênteses, que tal?

sds

Retrospectiva a pensar a labuta da escrita (foto: Gabriela Di Bella)

O título é forte e faz referência a uma célebre frase do inglês Winston Churchill, usada em contexto bem mais categórico do que este. A analogia que quero reforçar, no entanto, creio que seja justa: nenhuma empreitada séria se faz sem esforço.

Comecei o blog com duas paixões devidamente anunciadas, o vinho e a escrita. Página virada, rolha sacada e taça servida, o que escrevo não está pré-definido ou limitado. Ainda tenho aberta diante de mim uma gama de assuntos interessantes e muita vontade de dar conta deles: vinhos, enoturismo, vinhos, tipos de uvas, vinhos, gastronomia, vinhos, regiões de procedência, vinhos, técnicas de vinificação e – por que não – vinhos (baratos, diferentes, nacionais, importados etc.).

O trabalho para manter o blog devidamente alimentado, contudo, é grande. A correria acaba tendo um impacto maior na definição de temas do que eu gostaria – embora no quesito qualidade eu ache que não pesou tanto (ou assim espero). E o que isso significa?

Bem, no esforço para manter o contato com os estabelecimentos daqui e tentar criar uma relação com o público local (de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul), me vi às voltas com vinhos e eventos que mereciam descrição detalhada. Muitas vezes, mereciam mais atenção do que consegui dedicar… Aprendi muito e ainda tenho quatro ou cinco relatos, entrevistas e visitas detalhadamente anotados, porém aos quais não consigo retornar como gostaria. E, claro, nesse fluxo me afasto ainda mais de outras possibilidades que o blog poderia abraçar. O jeito que encontrei (processo em andamento, não concluso) foi fazer menos para fazer melhor. Isso implica repensar o que estou escrevendo, como estou escrevendo, e para quem estou escrevendo. Vamos lá, ver se fecho esse parênteses…

Vinhas de Isabel nonagenárias são um dos atrativos da propriedade.

Imagens para quebrar o texto – geralmente relacionadas, hoje apenas ilustrativas (Gabriela Di Bella)

O que escrevo

O blog nasceu com uma proposta de “descobrir o vinho a partir do Brasil”, o que significa conhecer o que está ao nosso alcance – seja numa loja especializada, seja nas prateleiras do supermercado, seja na quitanda de um pessoal lá da Serra que resolveu vender os vinhos na Capital. Não perdi essa proposta de vista, mas pelo menos no que toca as viagens de enoturismo não a estou seguindo à risca. As visitas a vinícolas no Estado se mostraram mais difíceis de organizar do que eu imaginava, um pouco pelas distâncias aqui no Brasil, outro pouco pelas nossas agendas (minha e da Gabi, fotógrafa do Movido a Vinho). O resultado é que chegamos ao mês de setembro com quatro visitas apenas. Não sei ainda como aumentar esse número no futuro, mas a estratégia geral é e continuará sendo muito simples: produzir conteúdo de qualidade. Isso talvez signifique escrever menos, mas me dá confiança para saber que seguiremos no caminho certo.

Nos últimos meses vocês devem ter acompanhado a agenda que estávamos publicando aqui, com eventos enogastronômicos centrados em Porto Alegre. Por mais que me pese, acabei abrindo mão deste projeto, pelo menos por hora. Por um lado, porque não tive o feedback esperado; por outro, porque o trabalho não era pequeno, ainda mais ante o baixo esforço de divulgação que algumas lojas e redes empreendem. Não estou pedindo entrada gratuita nem nada do gênero, apenas queria que enviassem o aviso antecipado dos eventos, o que nem sempre ocorre… Concluí que a centralização das agendas, por hora, não é do interesse dos estabelecimentos. Se isso mudar, retomo.

As matérias sobre degustações e vinhos ganharam espaço. Nada muito técnico, mas também nada de eno-ostentação. A ideia é mostrar experiências – de preferência, experiências que se possam reproduzir em casa. Estou por me arriscar nas notas mais detalhadas de avaliação (coisa que já faço pelo Vivino, aliás, com o perfil Movido a VInho). Por enquanto, não tenho certeza de qual formato seguir e vou dar mais um minuto para reflexão.

O que não estou escrevendo, certamente, são textos mais técnicos ou reflexivos. Ando sem tempo para reflexão, afinal, este é um trabalho que desempenho nas horas livres, e nem todo mundo tem um pique de um Rogério Ruschel! Mas chegarei lá, espero, quanto tiver ganho velocidade no projeto.

Nano vinícola: produção de 30 mil garrafas e atenção aos detalhes

Vinícolas no RS estão perto, mas não tanto (Gabriela Di Bella)

Como escrevo

Vi que não adiantava (nem sempre) querer escrever sobre temas técnicos a partir da posição de ignorância, razão pela qual fui atrás de algum treino e certificação (tenho agora o diploma do WSET nível 2, “com estrelinha”). Isso não faz de mim um especialista, mas ao menos atesta que (segundo eles) não sou um idiota.

O tamanho dos textos também é uma questão pertinente: textos mais curtos seriam mais rápidos de escrever e postar, mas nem sempre são interessantes. Textos muito longos dão trabalho e são chatos (tenho certeza absoluta de que este é um caso). O ponto é que este trabalho tem uma proposta jornalística e literária. Vale a analogia com a crônica: não precisa sempre ler tudo. Leia de vez em quando, se estiver a fim, se for agradável. Embora estejamos na internet, fuce o primeiro parágrafo e deixe para ler em casa com calma no dia seguinte. As pessoas às vezes esquecem que os textos que se postam na web também são para ler…

A frequência das publicações também se enquadra no item “como”. Queria escrever pelo menos duas vezes por semana. Mais que isso não seria possível no momento, menos… Bem, menos, que é o que estou fazendo, resulta de um desequilíbrio entre a experiência prática (o vinho, os eventos, o enoturismo) e os momentos de reflexão. É comum que esses elementos não estejam balanceados no nosso dia a dia, mas aqui está em jogo uma postura filosófica: a experiência pensada, fenomenologicamente contextualizada e analisada, é a mais plena possível. E se for para fazer pela metade, vou ficar com a primeira metade (que envolve beber os vinhos). #prontofalei

Vinhedos no fim do outono:

Não me canso de olhar para essas paisagens! (Gabriela Di Bella)

Para quem escrevo

Se você chegou até aqui, leitor, é para você que escrevo. Stendhal, autor francês do romance Vermelho e o Negro, colocou na introdução deste livro um comentário sobre o seu público. Embora vendesse milhares de cópias e fosse reconhecido no seu país, declarou que escrevia para uma dezena de leitores, se tanto. Verdade? Creio que sim. O broadcast não alterou a essência dessa ideia, pois ser lido não basta (salvo para os mais narcisistas): o quer se quer, em última instância, é ser compreendido.

A cada post, deve haver e haverá leitores específicos: curiosos sobre determinado rótulo, interessados em visitar uma vinícola, apaixonados pelo  vinho.  Se eles estiverem satisfeitos, já me dou por contente. Afinal, eles são um bom espelho da qualidade do texto.

Por outro lado, o que quero alcançar com cada texto é uma identidade. A identidade do vinho, da loja, da vinícola. Por esta razão, também me agrada saber que estão contentes as pessoas que entrevistei e sobre as quais escrevi. Nada de puxa-saquismo, apenas outro espelho – um pouco mais enviesado e muito exigente – que espera ver no texto um retrato da realidade que se esforça para construir.

Com o tempo, espero que a relação do blog se consolide com todos esses públicos, e que sejamos reconhecidos como bons produtores de conteúdo no mundo dos vinhos. Por hora, bem, vamos voltar aos nossos posts e seguir para onde nos levam!

Abraço e bom proveito!

2 comentários sobre “Sangue, suor e vinho – um intervalo poético nessa vida de blogueiro

  1. Meu caro, acredito que conseguistes, o teu objetivo de unir uma prosa agradabilíssima com lépidos momentos de libação! Me sinto frustrado, no entanto, com o teu “Abraço e bom proveito!” aos finais dos textos! Parece-me que estou a ir em uma casa de comida rápida e pronta! Já que falastes em mudanças, como mero leitor, (e sou dos que leu até o ponto em que escrevestes que seria para nós as escritas!) e também apreciador de vinhos, digo que não gosto desse fim.

    Curtir

    • Eloy, muito grato pelo elogio e mais ainda pela crítica! Eu mesmo não me sinto tão contente com esse fechamento. Queria algo que marcasse a conclusão sem pesar no texto. Se a expressão cria esse incômodo, não serve. Vou repensar! Abraço e… sem mais fast food!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s