Koyle e as pérolas de Paredones

Me intrigam as dicotomias: quase tudo na vida pode ser separado em duas categorias, por mais reducionistas ou estapafúrdias que sejam. Bons e maus, gordos e magros, feios e belos. Só que, na maioria dos casos, elas escondem a complexidade do mundo e das coisas.

A dicotomia sobre a qual vou escrever hoje é a dos varietais versus assemblages. Este post resume uma verdadeira aula que tive sobre o assunto na Grand Cru em Porto Alegre, quando da apresentação da Vinícola chilena Koyle.

Apresentação dos vinhos da Koyle na Grand Cru de Porto Alegre

Vinhos da Koyle na Grand Cru de Porto Alegre (foto: Gabriela Di Bella)

O conceito é simples, mas vale retomar: um varietal é o vinho produzido “totalmente” a partir de uma única variedade de uva. Já o assemblage é o vinho de corte, que mistura cepas na tentativa de equilibrar o produto final. Muito se fala sobre a qualidade de cada uma dessas técnicas, mas vou deixar isso para depois.

O uso das aspas acima foi intencional. O que muita gente não sabe é que um varietal não precisa ser feito 100% com uma única uva, já que as legislações de cada país determinam uma “margem de erro”: 5%, 10% ou até 15%, como é o caso do Chile. Na maioria dos vinhos essa margem é usada para equilibrar excessos ou defeitos: pouca cor, muita acidez, aroma flácido. É para isso que ela foi criada – e, para ser justo, ela é a causa de tantos bons varietais chilenos no mercado.

Gonzalo Silva Lecaro, gerente de exportações, apresenta os vinhos da Koyle (foto: Gabriela Di Bella)

Gonzalo Lecaro, gerente de exportações da Koyle, apresenta os vinhos (foto: Gabriela Di Bella)

O fácil, porém, é muitas vezes sem graça. As pessoas começam a buscar vinhos de assemblage porque eles proporcionam experiências diferentes, muitas vezes mais ricas e com alguma personalidade. Salvo exceções, um assemblage vai requerer a intervenção de um especialista, que vai dosar as quantidades na busca de uma mistura ótima. Nada surpreendente, por isso, que alguns dos vinhos mais complexos e elegantes (a maioria absoluta dos franceses, por exemplo) sejam fruto de cortes muito bem elaborados.

A grande experiência que os vinhos da Koyle nos proporciona está no uso que eles fazem dessa brecha de 15%. Afinal, se vinhos medianos podem ficar bons, vinhos que já estavam bons podem ficar… ótimos? Com essa filosofia, eles produzem “falsos varietais”, que extrapolam o ordinário de cada uva em busca de experiências únicas.

Terroir e sintonia fina: varietais com um toque a mais (foto: Gabriela Di Bella)

Terroir e sintonia fina: varietais com um twist (foto: Gabriela Di Bella)

As duas características marcantes da Koyle são o terroir e o dedo do enólogo, que brinca em melhorar vinhos que já seriam bons. A vinícola pertence à família Undurraga, fundadora da marca de mesmo nome, que hoje foi vendida a outro grupo. Afastados do grande mercado, eles retomaram a produção de vinhos com uma proposta ecológica e biodinâmica. Nada de pesticidas, leveduras comerciais ou produção em massa. O foco são vinhos de autor, aliando qualidade técnica com sustentabilidade.

Usando a margem de 15%, o enólogo Cristóbal Undurraga Marimón procura agregar virtudes e diferenciar o vinho dos seus concorrentes. Cabernet Sauvignon com notas de groselha? Carmenère coloração rubi? São vinhos que brincam com os sentidos e tornam a experiência mais interessante. Mesmo a linha “de entrada”, classificada como Gran Reserva, usa um mínimo de 6 meses de barrica e reduz a extração da parreira a não mais de 1,5kg por planta. “Nosso enólogo é um artista. Cria seus vinhos ao próprio gosto, mudando a receita ano a ano”, declarou Gonzalo Lecaro, gerente de exportações da Koyle.

Vinhos que fogem da média (foto: Gabriela Di Bella)

Vinhos que fogem da média (foto: Gabriela Di Bella)

Gostei bastante do Carmenère Gran Reserva, que leva na composição 8% de Malbec, 3% de Cabernet Franc e 3% de Petit Verdot. A cor realmente engana, com um tom rubi de intensidade média. Os aromas trazem pimenta branca, tabaco, menta, morango e um toque de pimentão. Em boca, se mostra com bastante álcool e tanino, o que sugere alguns anos de potencial de guarda. Em boca, lembra uma fruta vermelha doce e madura, nada enjoativa graças ao equilíbrio proporcionado pela madeira.

A linha top, a Royale, leva mais adiante a mesma proposta. Não mais que 1kg de uva por planta, mais madeira. Se tem corte? Tem. Mas, nesse caso, não tenho as receitas. É o caso do Tempranillo Royale, um excelente vinho com muito corpo, Taninos vivos e boa acidez. Bom para tomar hoje, com frutas vermelhas e chocolate, mas equilibrado para durar alguns bons anos na garrafa.

O queridão da vinícola, no entanto, não é de nenhum desses: é o Pinot Koyle Costa, um vinho rico e complexo. No nariz, morango, cogumelos, couro e pimenta de cheiro. Em boca é fresco e levemente mentolado. Muito equilibrado, com acidez, álcool e Taninos suficientes para ganhar ainda mais complexidade. Pinot não é minha uva de preferência, mas este estava uma delícia!

A vinícola despertou meu interesse, tanto pela proposta como pelo resultado. Recomendo a quem possa provar esses vinhos, ou, tendo uma viagem ao Chile, dar um pulo por lá!

Era isso – fico por aqui e na torcida para descobrir mais enólogos com espirito aventureiro, no Chile o afuera.

Vinhos provados: classe e consistência (foto: Gabriela Di Bella)

Vinhos provados: classe e consistência (foto: Gabriela Di Bella)

Um comentário sobre “Koyle e as pérolas de Paredones

  1. Pingback: Novos vinhos da Koyle enfatizam terroir | Movido a Vinho

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