Caminhos do Vinho: Cooperativa Garibaldi

Escrevo da estrada*. São 23:00 de sábado (24/10) e o carro que transportou um pequeno grupo de jornalistas à Cooperativa Vinícola Garibaldi desce as curvas da RS-122 no caminho de volta para Porto Alegre. Foi uma viagem rica e quero partilhar enquanto está fresca, mesmo com aquele tilintar do espumante ainda na cabeça. Vamos lá?

Referência em espumantes, a Garibaldi vem ganhando espaços com produtos de qualidade e acessíveis.

Referência em espumantes, a Garibaldi vem crescendo com produtos acessíveis e de qualidade.

Vou quebrar o texto em dois para não cansar os leitores. Este primeiro será sobre a minha visita à Cooperativa Vinícola Garibaldi. No segundo vou escrever sobre a Fenachamp, que também fica na cidade de Garibaldi e visitei na ocasião. Foram duas experiências fantásticas na mesma viagem!

Na estrada: Chegamos em Garibaldi por volta das 15:30, após uma viagem tranquila.

Na estrada: Chegamos em Garibaldi por volta das 15:30, após uma viagem tranquila.

Eu e o Marcos Graciani, do blog Cepas e Cifras, saímos de Porto Alegre às 13:00. Tivemos uma desistência por motivo de saúde, mas tudo devidamente comunicado e o carro largou no horário. Seguimos até Novo Hamburgo pela BR-116 para buscar a Karina Moraes, do programa Kah Entre Nós. Grupo enxuto e qualificado, seguimos caminho num clima muito amigável e sem paradas até Garibaldi, pegando as estradas RS-240, RS-122 e RS-446.

Belas paisagens em uma estrada coberta pelo verde das árvores.

Belas paisagens em uma estrada coberta pelo verde das árvores.

Nosso motorista, o Manoel, era uma pessoa agradável de conversar. Policial aposentado e homem de fé, trocou algumas ideias com a gente até engatarmos papos de política e amenidades. Entre jornalistas todos têm opinião própria, mas estávamos bem ponderados e ninguém se feriu. A viagem seguiu tranquila, apesar da minha ansiedade pelo que nos aguardava na Terra do Espumante.

Nossa chegada na sede da cooperativa exigiu algumas voltas. A entrada na cidade não é complicada, mas requer atenção. Especialmente quando o GPS dá rasteira… Na RS-446, fique atento às placas e pegue à direita no local certo. Caso contrário, há um recuo logo adiante a uns 400 metros para fazer o retorno (fica a dica).

Entrada da Cooperativa Garibaldi, pela rua central da cidade. Só não é mais fácil de achar porque o GPS não entende bem....

Entrada da Cooperativa Garibaldi, pela rua central da cidade. Só não é mais fácil de achar porque o GPS não entende bem….

Após entrar na cidade, basta seguir pela rua principal três ou quatro quadras até chegar no endereço, à direita. Mais uma vez, cuidado com o engodo do GPS.

O endereço da empresa é quase centenário, mas a entrada mudou faz cerca de um ano. Antes os turistas tinham de dar a volta na quadra. Agora, é só estacionar na avenida mesmo, mas o google maps parece que não ficou sabendo…

A entrada da vinícola é simpática e conta com uma estátua daquelas que jorra vinho (não me perguntem por onde: olhem a foto). Do lado de dentro, alguns quadros de artistas locais mostram o interesse da Cooperativa em participar da comunidade, difundindo o trabalho desses pintores.

Maiquel, diretor de Marketing, nos recebeu e foi logo adiantando alguns dos temas sobre os quais conversaríamos. Mas vamos seguir pela ordem! Havia uma excursão recém chegada na vinícola, que tivemos de driblar. Senhoras vindas de dois ônibus diferentes lotavam o corredor impediam a passagem. Aguardamos.

Grupos entram e saem da vinícola ao longo do dia. Foram 60 mil turistas em 2014 e o número ainda pode crescer em 2015.

Grupos entram e saem da vinícola ao longo do dia. Foram 60 mil turistas em 2014 e o número deve crescer em 2015.

Quando elas seguiram passeio, entramos até a Sala Acordes, montada para degustações especiais. Ali, com lugares postos, sentamos com o Maiquel e a Adriana, simpática assessora de imprensa da Cooperativa.

Mesa posta para a degustação: depois de chegar, ficamos sabendo que experimentaríamos a linha "Acordes", bebidas Premium produzidas pela Garibaldi.

Mesa posta para a degustação: depois de chegar, ficamos sabendo que experimentaríamos a linha “Acordes”, bebidas Premium produzidas pela Garibaldi.

Nosso host falou da Cooperativa e dos seus vinhos mais top - a linha Acordes.

Nosso host falou da Cooperativa e dos seus vinhos mais top – a linha Acordes.

O Maiquel é dessas pessoas entusiasmadas, que gosta do que faz e contagia os outros no processo. A apresentação dele serviu para duas coisas. Primeiro, conheci um pouco da história e dos números da Cooperativa, referentes ao crescimento do grupo nos últimos anos. Segundo, provei alguns dos melhores vinhos que a vinícola produz – superiores não apenas ao restante de sua própria produção, mas também à grande maioria dos produtos nacionais. (Quero falar um pouco deles também, só aguardem mais algumas linhas que eu chego lá).

De forma bem resumida, a história da Cooperativa Vinícola Garibaldi (CVG) pode ser contada em três capítulos. Sua origem data de 1931, quando 73 famílias locais resolveram se juntar na tentativa de combater os reflexos da crise de 1929. O grupo cresceu até 1960, quando chegou a ser a maior vinícola da América do Sul (na frente de todos os produtores do Chile e Argentina). No entanto, a CVG tinha como foco vinhos de mesa e demorou para se adaptar às novas exigências do mercado. A revolução aconteceu em 2004, quando lançaram os espumantes da linha Garibaldi. De lá para cá, eles tem crescido e se consolidado: são 172 funcionários, 380 famílias de associados, um portfólio de 70 produtos e 20 milhões de quilos de uvas colhidos no ano (UAU!). A vinícola ainda está longe de recuperar o sucesso dos anos 1960′, mas já pode ser considerada um caso de sucesso no mercado brasileiro.

A crise atual é inegável, mas o segmento nacional de vinhos parece estar dando um jeito (em parte graças à crise maior no setor de vinhos Importados). Olhando o balanço social da cooperativa dá para ver que isso se reflete tanto no faturamento deles como no ganho de reconhecimento, em premiações diversas pelo mundo. Vou deixar esses números de fora do texto – quem quiser pode procurar na internet e achará uma centena de medalhas ganha somente nos últimos dois anos. O importante agora é falar dos vinhos!

A linha Acordes tem apenas três vinhos e foram produzidas 3 mil garrafas de cada!

A linha Acordes tem apenas três vinhos e foram produzidas 3 mil garrafas de cada!

Provamos o Acordes Chardonnay 2012 primeiro. Um primor. Mesmo gelado, o vinho apresentava aromas de frutas tropicais e cítricas. Conforme foi esquentando em taça, ele mostrou notas de pão e manteiga que podem ser associadas ao prolongado contato com leveduras. Muito agradável e completo em boca, suntuoso e pedindo um pouco mais de guarda. Um dos melhores Chardonnay brasileiros que já tomei (curiosidade: os únicos concorrentes nos quais consigo pensar ficam atrás. Nenhum deles ganhou fermentação em barrica ou este acabamento no contato com as leveduras).

Vedados para provar os vinhos. uma experiência de filme, que não tem muito a ver com as tradicionais degustações às cegas.

Vedados para provar os vinhos. uma experiência de filme, que não tem muito a ver com as tradicionais degustações às cegas.

Para o tinto, Maiquel propôs uma brincadeira. Fomos vendados e provamos o vinho literalmente às cegas (registro a ocasião com foto do Marcos Graciani, na esperança de que alguém me ceda uma foto em que eu apareço vendado para compartilhar depois). Provamos quatro taças, cada uma ao som de uma música. O primeiro vinho era o Merlot tinto do Acordes. Ele foi se abrindo aos poucos, mostrando frutas vermelhas e terra úmida. Grande vinho, ainda intenso e com mais alguns anos de guarda. O segundo vinho me agradou no nariz, era quase um Amarone de tão oxidado e doce. O terceiro e o quarto vinhos eram muito semelhantes, mas me pareciam ainda muito fechados. Tiramos a venda e… havíamos provado apenas dois vinhos (a 3ª e 4ª taça eram do mesmo Merlot Acordes!). O vinho número 2, curiosamente, era uma garrafa do próprio Acordes, porém aberta alguns meses antes e vedada somente! Em boca lembrava mais Jeréz do que vinho, mas eu teria tomado se não me advertissem. A experiência valeu para ver como a percepção de um vinho pode mudar com variações sutis e que mesmo com os aromas de oxidação excessivos esse vinho tinha fruta para dizer a que veio.

Decoração da vinícola: espumante faz parte da identidade.

Decoração da vinícola: espumante faz parte da identidade.

O espumante estava ótimo também. A produção dele foi cuidadosa aos mínimos detalhes, com tratamento diferenciados para cada uma das uvas usadas no corte antes do repouso de 24 meses em barricas (ele é de 2012, apesar das garrafas não serem safradas). Bem aromático (abacaxi, pão fresco e notas florais), com bastante presença em boca e um final de erva doce. Talvez por se tratar da Garibaldi, fiquei mais surpreendido com os dois vinhos anteriores do que com o espumante – pois já sabia que seria ótimo.

Papeamos um pouco e nos despedimos. Maiquel estava a caminho da Fenachamp e nós terminaríamos o tour antes de seguir até a feira.

Ainda decoração: os corredores antigos e as pipas gigantes foram coloridos pela criatividade.

Ainda decoração: os corredores antigos e as pipas gigantes foram coloridos pela criatividade.

Enchi minha taça de Chardonnay e fiquei bebericando enquanto nos levaram para concluir o trajeto do tour pela vinícola. Cada pipa naquela sessão (a maioria cheia, pelo que entendo) trazia alguma frase ligada ao vinho e fazia pensar sobre o imenso volume de trabalho que daria beber aquilo tudo!

Não nos demoramos tanto nessa parte, até porque o expediente estava encerrando e se quiséssemos comprar algo na loja o expediente estava encerrando. Corremos e escolhemos algumas garrafas (todos levaram algumas) e, no meu caso, 6 litros de suco de uva – o qual descobri que representa nada menos que 44% do faturamento da cooperativa nos dias de hoje – e uma garrafa do delicioso Acordes Chardonnay, que valia cada centavo e tristemente está para se esgotar no mercado.

Loja amigável: depois da reforma da loja e da estrutura turística, visitantes como eu) mais que dobraram o consumo médio na saída.

Loja amigável: depois da reforma da estrutura turística, visitantes (como eu) mais que dobraram o consumo médio na saída.

Espaço para provar os sucos, vinhos e espumantes.

Espaço para provar os sucos, vinhos e espumantes.

Vale um adendo antes de fechar a história: já visitei a Garibaldi em outra ocasião. A sala de degustação ao final do passeio é uma maravilha: ali, a imensa maioria dos produtos deles estão disponíveis para prova (à exceção das linhas Acordes e Amaze – vendida somente fora do Brasil – e dos espumantes Giuseppe Garibaldi e Bee – que eles produzem, mas não comercializam).  Dessa vez, como íamos ainda à Fenachamp, passamos reto…

Deixo para contar da Fenachamp numa próxima ocasião. Foi minha primeira visita e gostei muito do clima “família”: bem organizado, com música ao vivo e pessoas de todas as idades. Para a curiosidade, deixo uma foto do estande da Garibaldi.

Diferente de feiras voltadas ao consumo exagerado, a Fenachamp tem muito espumante e boa comida, mas com senso de moderação.

Diferente de feiras voltadas ao consumo exagerado, a Fenachamp tem muito espumante e boa comida, mas com senso de moderação.

*O texto foi escrito no caminho de volta a Porto Alegre, mas acabei segurando a postagem para depois que estivesse com as fotos prontas e a cabeça em ordem. Só corrigi os erros de digitação e compartilhei. E aí, gostaram?

Um comentário sobre “Caminhos do Vinho: Cooperativa Garibaldi

  1. Pingback: Um ano de blog: Caminhos do Vinho | Movido a Vinho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s