Programas com Vinho em Porto Alegre: Don Giovanni apresenta seus espumantes

A Confraria Bom Vin é um grupo de jornalistas que se reúne em Porto Alegre para provar e divulgar o vinho brasileiro. Não somos especialistas, mas amamos o vinho e queremos compartilhar as histórias dessa bebida, dentro e fora das taças. Nesta semana tivemos um encontro para conhecer os espumantes e a trajetória da Vinícola Don Giovanni, no Haus Burguer Bar. Foi a ocasião de provarmos o espumante Dona Bita, ícone da vinícola com 70 meses de autólise.

Confraria reunida para experimentar o Dona Bita 70 meses.

Confraria reunida com os espumantes da Don Giovanni – incluindo sua estrela, a Dona Bita 70 meses.

Fomos recebidos pelo gerente comercial, Daniel Panizzi. O clima, pra lá de amigável, era de uma reunião entre velhos amigos. Um dos primeiros encontros da Bom Vin, há cerca de três anos, foi promovido pela Don Giovanni, que acredita no potencial do vinho gaúcho tanto quanto nós! Anteriormente eles lançaram outra versão do espumante Dona Bita, o qual foi recebido como um dos melhores do Brasil. Na época, eles utilizaram 48 meses de autólise (expressão que traduz o contato com as leveduras, concedendo complexidade ao espumante). De lá para cá, o que mudou?

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Gerente Comercial da Don Giovanni, Daniel conversou com os jornalistas da Bom Vin.

Bem, a Don Giovanni decidiu investir na produção orgânica e biodinâmica. “Percebemos uma tendência mundial pela redução de defensivos químicos, por causa da busca pela alimentação mais saudável”, aponta Daniel. A técnica biodinâmica é uma prática comum em grandes vinhos da França e está ganhando espaço no Brasil. Ao propor a adaptação de seus vinhedos em Pinto Bandeira (RS), a Don Giovanni passa a ser uma das pioneiras do país nesse método, que envolve desde  a adoção de um calendário de poda específico até a adoção de regras rígidas para manejo e a colheita. A agricultura biodinâmica vai além da ideologia sustentável, respeitando ciclos naturais cujo significado, para os crentes, é quase místico. Neste último outono foi feita uma compostagem com preparados biodinâmicos e, para reduzir o nascimento de ervas daninhas, semeou-se aveia no espaço entre as vinhas.

“O sistema biodinâmico ajuda a conseguir maturação mais completa. Os vinhos são mais intensos, encorpados, expressivos e longevos”, explica Maciel Ampese, enólogo que projeta a implantação desse método na Don Giovanni. No momento, eles já estão usando o TPC, equipamento que usa ar quente para estimular a defesa das videiras (um processo chamado de “estresse térmico). O resultado é uma redução de 30% no nível de agrotóxicos utilizados. O processo de transição deve continuar pelos próximos cinco anos, com  objetivo de chegar a 0% de químicos.

Propriedade da Don Giovanni em Pinto Bandeira (RS) recebe turistas (foto: Carmem Gamba)

Propriedade da Don Giovanni em Pinto Bandeira (RS) pertence à família desde os anos 1930′ e hoje tem estrutura para receber turistas (foto: Carmem Gamba)

Interessante para analisar esse salto é ver como ele se enquadra na história da vinícola. Para quem não sabe (e eu não sabia) o complexo que abriga a Don Giovanni pertence à família Dreher, outrora dedicada à produção do destilado de mesmo nome (fabricado num volume espantoso: 60 milhões de litros por ano na década de 1960!). Por uma sucessão de dramas familiares eles venderam a empresa, que se transferiu para São Paulo. Fato interessante: com a transferência da Dreher, muitos vinicultores não tinham mais compradores para suas uvas e foram em busca de alternativas. Isso coincidiu com a criação de diversas das vinícolas hoje conhecidas de Bento Gonçalves! A família manteve a área onde hoje se encontra a Don Giovanni, fundada oficialmente em 1982.

Taças cheias de qualidade - sucesso dos espumantes tem levado ao investimento em mais qualidade.

Taças cheias de qualidade – sucesso dos espumantes tem levado a mais investimentos.

O projeto cresceu nessas mais de três décadas de existência. Atualmente, eles produzem seus vinhos somente com uvas dos próprios vinhedos. Por essa razão, estão num processo de reconversão das vinhas, priorizando uvas usadas em seus  espumantes (que hoje representam 80% da produção de 120 mil garrafas). A tendência é que essa relação aumente, com o fim da produção de Tannat (eles ficarão com somente um cuvée e um Cabernet Sauvignon).

A preferência pelos espumantes é resultado tanto da qualidade reconhecida do terroir de Pinto Bandeira como da recepção dos seus produtos pelo público. Prova disso é que nos últimos dois anos a produção deles dura apenas seis meses no mercado – as garrafas são rapidamente vendidas e a vinícola se concentra na produção do ano seguinte. Outra evidência do nível de seus espumantes, mais concreta, é a Grande Medalha de Ouro que o Stravaganzza Espumante Brut ganhou na competição de Espumantes Brasileiros promovida este ano pela ABE (Associação Brasileira de Enologia).

Alguns empresários de Pinto Bandeira já solicitaram à Embrapa a classificação de Denominação de Origem (ou DO), que é mais rígida e restrita que a Indicação de Procedência atualmente atribuída à região. A previsão é que Pinto Bandeira seja elevado à categoria DO em até três anos. A partir daí, os espumantes produzidos na região terão de ser feitos pelo método tradicional e utilizar as variedades Chardonnay, Pinot Noir e Riesling. Apesar da restrição, isso garantirá maior respeito e confiança do mercado.

Agora, hora de falar dos espumantes!

Agora, hora de falar dos espumantes!

Há muitas formas de se apresentar um vinho. Neste caso, experimentamos em sequência seis dos espumantes da vinícola, tudo num clima muito informal. O clima amigável não me ajuda a descrever um por um os espumantes deles, mas a proposta foi mostrar como cada garrafa se comportava “em ação” – e nesse sentido todas foram um sucesso.  Vou tentar seguir este clima: falar um pouco do que marcou mais e dar uma ideia geral de cada espumante.

Começamos pelo Stravaganzza – 12 meses de maturação, aromas de limão e pera, no nariz e na boca. Tem um final de limonada suíça, que faz até pensar em uma caipirinha. É um espumante agradável e fácil de beber – que fez por merecer sua medalha de ouro.

O Don Giovanni Brut Rosé (50% Pinot vinificado em branco, 40% merlot e 10% Chardonnay) tinha uma complexidade aromática atípica, mas muito agradável. Me deixou querendo repetir! O Don Giovanni Brut não ficou para trás, com seus 24 meses de autólise. Maaaas, para o meu paladar, o Extra Brut Don Giovanni Ouro (36 meses de autólise) ficou melhor.

DSC_0443Breve confissão: tomaram meu Nature! Sim, todos ganharam taças, mas antes que eu pudesse beber a minha alguém (que provavelmente gostou muito) achou mais importante repetir. Crime inocente, perdoável, mas não tenho como falar para vocês deste espumante…

Resta apenas o Dona Bita 70 meses, que levou meu selo de qualidade: aromas complexos decorrentes do processo de autólise prolongado (frutas em passa, pão, mel), muita presença em boca e um final prolongado de limão com uma pitada de sal. É um espumante que custa o que oferece, mas faz parte da restrita categoria de vinhos (sim, espumantes são vinhos) que estão tentando ampliar os atuais padrões de qualidade no Brasil.

Bueno, ficamos por aqui. A Don Giovanni tem também uma bela estrutura de turismo, sobre a qual deixo para falar no dia que visitá-los (e irei!). Por hora, deixo meus agradecimentos ao Daniel, ao Haus Burguer e à Don Giovanni. Abraço a todos e até breve.

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