Viva o Malbec Day!

No dia 17 de abril é comemorado o dia internacional do Malbec. Pode parecer curioso escolher uma data para celebrar uma uva, mas estamos falando de toda uma cultura que gira ao redor dela – especialmente na Argentina.

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Para celebrar a data, o consulado argentino em Porto Alegre recebe todos os anos apreciadores e jornalistas para degustar diferentes vinhos de Malbec e experimentar o estilo de vida que eles proporcionam. Neste post, vamos apresentar os principais estilos de Malbec produzidos na Argentina, bem como  alguns vinhos representativos de cada categoria – tudo que você precisa para encontrar boas opções de Malbec no Brasil, e a preços justos.

Da supremacia do Malbec à diversidade do Malbec

O Malbec foi, por muito tempo, propagandeado pelos argentinos como a variedade-símbolo do país. Nos anos 1990, esse varietal foi alçado à categoria de símbolo argentino, muito embora a origem da uva seja francesa. De modo geral, essa fase foi superada: o respeito e amor pelo Malbec não são mais barreiras para que a vinicultura argentina explore outras uvas e se aperfeiçoe no que sabe fazer bem. Entre outras consequências, essa mudança de perspectiva deu origem a diferenças claras entre os estilos de Malbec.

Sim, estamos todos acostumados com os vinhos de fruta intensa que chegam aqui desde os anos 1990 (todos com bom uso de madeira, uns mais outros menos). Mas há variações! Não precisamos ser especialistas para perceber que muita coisa muda de uma garrafa para outra – basta abrir três ou quatro vinhos para notar que há diferenças entre uma e outra.

Vinhos

Malbecs importados no Brasil pela Grand Cru.

Quando dois rótulos provêm da mesma região e usam a mesma uva, as variações de estilo serão quase sempre resultado das técnicas de vinificação empregadas. É como comparar duas receitas que usam os mesmos ingredientes – assar uma carne na brasa ou no forno, por exemplo. Se os ingredientes são da mesma qualidade, o que torna o resultado tão diferente é a receita. Simples assim.

Abaixo, vamos mostrar algumas dessas “receitas” de Malbec, e apresentar opções para quem quiser provar cada um desses estilos. Bom proveito!

 

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O Malbec Tradicional

A produção e o consumo de vinhos na Argentina, hoje, é significativamente inferior ao que era nos anos 1960. Os argentinos ainda bebem bastante vinho (se comparados aos brasileiros, bebem em média 15 vezes mais por ano!), mas eles cansaram do vinho de baixa qualidade e foram qualificando a produção.

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A primeira mudança consistiu em aplicar técnicas europeias à produção, como o uso de bottes de madeira (barris gigantes com capacidade para milhares de litros) e o envelhecimento prolongado dos vinhos (que passavam alguns anos em garrafa antes de chegar no mercado). Esse é o Malbec que podemos chamar de “tradicional”: a madeira neutra não acrescenta novos sabores ao vinho, mas permite que o vinho ganhe concentração e amenize os taninos agressivos da uva. Trata-se de um estilo que ainda é fabricado e que tem lá seus admiradores (especialmente quando usadas uvas de qualidade).

Dois bons exemplos de Malbec “tradicional” são aquele produzido pela vinícola boutique Carmelo Patti (foto acima) e o mais comercial (e igualmente agradável) Malbec fabricado pela Weinert.

O Malbecão (da bomba de frutas ao “Vinhaço”)

Nos anos 1990, a produção de Malbec passou por uma revolução. A família Catena, fascinada pela qualidade da produção de vinhos na Califórnia, decidiu reproduzir em Mendoza as estratégias usadas na América do Norte. Com o objetivo de criar vinhos com fruta e madeira intensa, eles testaram as condições “ideais” para a produção de uvas: alturas diferentes, clones variados, maturação da uva.

IMG_8808Este é o estilo de Malbec ao qual estamos mais acostumado (embora possa ter grandes variações). Basicamente, ele é feito com frutas muito maduras e equilibrado em barricas de carvalho (francês ou americano). Muitas vezes, para que o vinho não fique tão enjoativo, a acidez acaba sendo ajustada no processo.

Na ponta mais acessível, até R$ 50, temos exemplos como o Zentas Malbec, com boas notas de ameixa vermelha e chocolate. Um pouco acima, o Finca La Linda Malbec, a R$ 63, mostra cereja, chocolate e hortelã. Ambos são excelentes exemplares dessa proposta, com boa fruta e notas amadeiradas.

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Os grandes exemplares dessa categoria, entretanto, são vinhos que chegam no Brasil a valores pouco amigáveis. Eles se destacam pelo uso de uvas mais concentradas e madeira de 1º uso (que lhes confere notas mais intensas), sendo comparáveis aos grandes vinhos norte-americanos e espanhóis. Para citar dois exemplares, fiquemos com o Bramare Valle de Uco (cereja negra, coco e chocolate amargo) e o Angelica Zapata Malbec (cereja tostada, chocolate e baunilha).

O “novo” Malbec

Nos últimos 10 anos, está se tornando cada vez mais frequente a produção de Malbecs jovens e frutados, com pouco uso de madeira. O aprendizado dos anos 1990 foi mantido (a uva é colhida muito madura e produz um caldo intenso e encorpado), mas o uso de barris de carvalho tem sido abolido. O motivo principal tem sido preservar a “essência” da fruta, uma vez que a madeira excessiva “padronizava” os vinhos (sim, os malbecões tem muitas vezes a mesma cara).

IMG_9760Para alguns, esse estilo significa uma volta às origens – aos vinhos que eram feitos antes mesmo do uso de botes de madeira, com fermentação em cubas ou ovos de cimento. Para outros, é um estilo novo, pois permite explorar sutilezas de solo, de altura e de posição solar que eram apagadas pelo método de produção anterior. Voltando à metáfora da carne: nesse caso falamos de um churrasco bem mal passado.

Aqui deixamos, mais uma vez duas opções para quem quiser experimentar: na ponta que explora a pureza da fruta, temos o Hey Malbec, um verdadeiro suco de cereja e framboesa produzido por Matías Riccitelli; no extremo oposto, dedicado a entender o terroir, encontramos o Altos Las Hormigas Malbec Terroir, um vinho com muita mineralidade e personalidade (usando solos que são 80% compostos de calcário). Em ambos os casos, um cuidado importante: são vinhos que podem fugir às expectativas de quem está acostumado ao estilo “malbecão”. Prove, mas saiba estar aberto ao que eles podem oferecer.

Malbec day

O evento no Consulado da Argentina contou com importadores e lojistas atuantes em Porto Alegre. Eles foram parceiros no evento e escolheram os vinhos a serem apresentados. Ao todo, contei 6 estabelecimentos e cerca de 40 Malbecs diferentes.

Se somar os vinhos que não vi no evento com as outras linhas de cada produtor, facilmente chego a 100 Malbecs diferentes disponíveis no mercado brasileiro. Com certeza, não faltam opções para todos os gostos e bolsos! O importante é saber o que você gosta, e investir nesse nicho.

Álvaro Lima é jornalista e apreciador de Malbec, em todos os seus estilos, desde que possa sentir aquela fruta potente que dá alma à uva!

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