ANV2016 mostra resultados da última safra brasileira

A 24ª edição da Avaliação Nacional de Vinhos (#ANV2016 para os íntimos) repetiu a fórmula que vem funcionando ao longo das últimas edições do evento: reunir mais de 850 pessoas ligadas ao setor para degustar, simultaneamente, alguns dos exemplares mais significativos desta safra. São vinhos previamente selecionadas pela Associação Brasileira de Enologia (ABE) a partir de amostras que ainda não estão no mercado, muitas delas precisando de algum tempo em barrica ou garrafa para mostrar todo o seu potencial. Juntos, produtores, enólogos, sommeliers, consumidores e jornalistas descobrem a “cara do safra”, ilustrando o potencial do vinho nacional ano a ano.

E então, qual foi a cara de 2016?

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Expectativa

Estavam inscritas 241 vinhos para avaliação este ano, de 46 vinícolas. Todas as amostras foram coletadas pela Embrapa Uva e Vinho e desidentificadas antes de serem provadas, às cegas, por 90 enólogos. Pelo menos 15 enólogos provou cada amostra, e as 30% mais representativas foram novamente triadas para a “cabeça de chave” que compõe o conjunto de 16 vinhos provados ao longo do evento.

As amostras são divididas em 5 categorias:

  • Vinho base de espumante;
  • Branco não aromático;
  • Branco aromático;
  • Tinto jovem;
  • Tinto;

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A atenção de todos na ANV2016 estava voltada para o trabalho dos enólogos. A safra deste ano foi prejudicada por questões climáticas, que afetaram a quantidade de uvas  disponíveis (com perdas de ate 60% em algumas propriedades). A dúvida que ficou dizia respeito à qualidade da safra remanescente: teriam as intempéries prejudicado a qualidade das uvas? E, sendo esse o caso, teriam os enólogos conseguido produzir bons vinhos com essas uvas? A resposta parece ter sido sim para ambas as perguntas, considerando os vinhos provados.

Base de espumante e vinhos brancos

A primeira rodada foi dedicadas às bases de espumante: duas amostras de Chardonnay seguidas por um corte de Chardonnay e Pinot. Todas muito ricas em “tensão”, ou seja, com acidez e intensidade para crescer bem com uma segunda fermentação. Frescos, com fruta e boa persistência (menor no corte). Claro, para se mostrarem ainda falta muito, mas são mais promissoras do que a safra teria indicado. As notas giraram entre 88 e 91 pontos para as três amostras, provenientes de três produtores já conhecidos:

  • Casa Venturini Vinhos e Espumantes (Flores da Cunha – RS) / Chardonnay
  • Domno do Brasil (Garibaldi – RS) / Chardonnay
  • Vinícola Geisse Ltda. (Pinto Bandeira – RS) / Chardonnay/Pinot Noir

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As amostras de brancos variaram mais em estilo. Nos brancos não aromáticos, a primeira amostra foi de um Riesling itálico da Vinícola Salton (Bento Gonçalves – RS), aceitável, porém algo “verde” na garrafa. As taças seguintes permitiram comparar um Chardonnay sem madeira da Cooperativa Agroindustrial Nova Aliança (Santana do Livramento – RS) e outro com, da Basso Vinhos e Espumantes (Farroupilha – RS). Ambos bons, mas ainda sem se mostrar completamente. O problema é que, em um evento como este, é preciso degustar sem esperar!

O quarto e quinto brancos foram de uvas aromáticas. O primeiro deles, um Sauvignon Blanc da Rasip Agropastoril (Vacaria – RS), tinha grande persistência e acidez. Foi muito apreciado pela banca e pelo público. O único branco aromático mostrado, um Moscato Gialo da Vinícola Don Guerino (Alto Feliz – RS), estava agradável e facílimo de beber.

Tintos

Foi servido um único tinto jovem – o que, em outras palavras, quer dizer um tinto que já está pronto para ser lançado no mercado. O Merlot selecionado surpreendeu, produzido pela Vinícola Casa Motter (Caxias do Sul – RS). Muita cereja, café e ainda mais especiaria. Uso, como eles próprios descrevem, “madeira alternativa”, ou seja, ele não repousa em barricas, mas ganha aromas específicos no contato com o carvalho. É um vinho ainda novo e um pouco de idade parece tudo que lhe falta. Nunca será aquela bomba concentrada, mas não se propõe a isso. No augem será vivo, fresco e delicioso.

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Os primeiros dois tintos convencionais usaram uvas menos habituais no cenário brasileiro: um Tempranillo da Miolo Wine Group Vitivinicultura (Bento Gonçalves – RS) e um Marselan da Casa Valduga Vinhos Finos (Bento Gonçalves – RS). Ambos com boa qualidade: o Tempranillo ainda se mostrava fechado e sugeria alguma guarda. O Marselan sequer se abria em taça! Retirado de barricas, ele ainda precisará evoluir para ser plenamente apreciado. Ambos são bons vinhos – o Tempranillo me agradou muito, e o Marselan fez sucesso geral. O próximo vinho foi um Cabernet Franc. Sem a seriedade e especiaria salgada que se encontra em CFs ícones, este vinho da Casa Perini (Farroupilha – RS) tem bom corpo e frutas negras, além de um toque terroso sutil. Muito equilibrado e saboroso.

Os dois Cabernets Sauvignon servidos na sequência estão entre os vinhos que provocaram a melhor reação geral do público, sendo pontuados com duas das mais altas notas do evento. O primeiro, da Guatambu Estância do Vinho (Dom Pedrito – RS), recebeu em média 90 pontos do público e da banca. Tinha bons taninos e ótima estrutura, muita fruta (ainda um pouco fechada) e apenas um toque herbáceo, que não chega a ser desagradável. O segundo, da Vinícola Almaúnica (Bento Gonçalves – RS), tem muita madeira, e encantou a todos. Achei a madeira excessiva, mas estava sim delicioso. Obteve uma nota de público de 91 pontos, a maior da noite, empatado com o vinho que se seguiria.

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Penúltimo vinho: um tannat da Dunamis Vinhos e Vinhedos (Dom Pedrito – RS), que por sinal também havia chegado ao final da ANV no ano anterior. De fato um vinhaço, com concentração, fruta e elegância. Para mim e para alguns especialistas (inclusive Pascal Marty, que lhe deu 94 pontos) foi o vinho da noite. Chegou a eclipsar o vinho seguinte , um Alicante Bouschet da Dal Pizzol Vinhos Finos (Bento Gonçalves – RS), conseguia ser ao mesmo tempo opulento (encorpado e rico) e sério (sem doçura ou aromas de fruta fácil) – e que fechou as amostras deste ano.

Mais do que uma prova de vinhos

A pluralidade de setores representado na ANV é sempre um ponto positivo. Ver essa diversidade de gente, reunida para apreciar e entender o vinho brasileiro, mostra que o mercado segue crescendo e que o vinho brasileiro está cada vez mais profissionalizado.

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O presidente da ABE, o enólogo Juliano Perin, ressaltou a importância da participação de profissionais de todo o setor – inclusive de especialistas estrangeiros, na banca que preside o evento e entre o público. A Avaliação Nacional de Vinhos permite que eles possam conhecer in loco a qualidade do vinho brasileiro. Ao descobrir o produto nacional, testemunhando a evolução de sua qualidade, muitos ajudam a divulgá-lo, quando não se tornam eles próprios apreciadores.

Nessa linha, compuseram a banca 15 convidados e um membro sorteado do público, representando sete países: Bélgica, Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Grécia e Reino Unido. Também merece destaque o Troféu Vitis, entregue ao italiano Roberto Rabachino, em reconhecimento a sua dedicação à valorização do vinho brasileiro. Já o Troféu Vitis Destaque Enológico 2016 foi entregue ao enólogo Antonio Agostinho Czarnobay, atuante na Vinícola Aurora por mais de 30 anos e na ANV por mais de 20.

Texto e fotos de Álvaro Lima (exceto a primeira, de Jeferson Soldi). 

4 comentários sobre “ANV2016 mostra resultados da última safra brasileira

  1. Como participante deste megaevento da ABE desde a primeira edição em 1993, vejo na ANV a rica possibilidade de se antever o que serão os vinhos brasileiros da safra. E, não me venham os enochatos, às vezes se jactando como conhecedores, dizer que os vinhos brasileiros “não são bons”. É de se perguntar: e, todos os vinhos importados são bons mesmo?

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      • Caro enófilo Álvaro Lima td bem? Como os vinhos têm te tratado? Bem? Beleza. Convido e AGRADEÇO o amigo a compartilhar minhas postagens no ALMADOVINHO.COM.BR
        Acabei de postar matéria sobre o vinho rosé Pinot Noir VIEJO FEO. Acessa lá!
        Enoabraços.

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  2. Pingback: 25ª ANV revela diversidade e inovação | Movido a Vinho

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