ANV 2017 – Tintos com inovação

Por mais que se goste de vinhos brancos ou espumantes, há algo de especial nos tintos, que nos faz querer bebê-los e discuti-los. Trata-se do estilo mais produzido nos dias de hoje, especialmente nas linhas de alta-gama. Por essa mesma razão, discutir as amostras tintas apresentadas na Avaliação Nacional de Vinhos deste ano (ANV 2017) nos enche de entusiasmo e orgulho.

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Depois de provar bons exemplares de brancos e de vinho base de espumante, os quase 1000 avaliadores reunidos em Bento Gonçalves para a Avaliação Nacional foram surpreendidos pelas amostras da categoria tinto fino seco, que mostraram doses consideráveis de criatividade da parte dos nossos enólogos. No post de hoje, vamos compartilhar a alegria dessa descoberta com os leitores.

Esta é a quarta e última postagem da nossa série sobre os vinhos apresentados na ANV 2017. Acesse aqui a matéria sobre o resultado geral da avaliação. Leia também nossas opiniões sobre os vinhos base de espumante e os vinhos brancos.

Tinto jovem

Antes de mais nada, cabe explicar as categorias usadas na ANV para classificar os vinhos tintos. Todos os vinhos provados na avaliação são finos e secos. Mais que isso: todos também são “jovens”, se considerarmos que a safra em análise é a do próprio ano. Apesar disso, a categoria “Jovem” se refere a vinhos que já estão prontos para serem lançados no mercado, segundo a opinião da própria vinícola e dos enólogos da Associação Brasileira de Enologia (ABE), responsáveis pela seleção da Avaliação.

Seguindo este entendimento, o público da ANV provou este ano um único vinho na categoria “tinto jovem”: um Cabernet Franc da vinícola Salton. O vinho tem seus méritos: boa complexidade no nariz e frescor em boca, associando frutas vermelhas a notas herbáceas características da cepa. Não tenho dúvida que vai ter muita saída no nosso mercado! Apesar disso, foi uma das amostras que menos entusiasmou, por representar um estilo de vinho menos encorpado, que não se apoia em madeira ou em fruta madura.

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Vinhos potentes
Verdade seja dita: muitos dos vinhos degustados não estavam exatamente prontos para serem bebidos. O mais provável é que, se perguntássemos aos próprios produtores o que eles achavam, eles responderiam que ainda não era hora de sacar as rolhas. Isso resultou numa grande intensidade de fruta e em taninos ainda agressivos, mas não por isso vinhos menos agradáveis.

Foram sete amostras apresentadas na categoria “Tintos Secos”. Elas revelaram fruta madura, bom corpo e sinais indicativos de passagem em madeira (uma passagem que provavelmente ainda não terminou). Todos os vinhos mostravam qualidade e intensidade. Para usar uma só palavra, eram tintos suculentos!

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Algumas novidades…

A primeira amostra degustada nessa categoria foi um Petit Syrah, uva pouco conhecida dos brasileiros, que eu acredito estar fazendo sua primeira aparição na ANV. Detalhe: o produtor selecionado, vinícola Luiz Argenta, tem como enólogo o atual presidente da ABE, Edegar Scortegagna, que deve ter ficado bem contente com a premiação. O vinho causou um estranhamento inicial, parcialmente porque suas propriedades aromáticas (muita especiaria, em especial noz moscada) fogem ao que o consumidor brasileiro está habituado. Não obstante, sua qualidade era inegável, mais ainda considerando que seja (creio eu) o início de sua primeira aparição comercial no País.

Outras amostras que, embora de uvas que já vêm ganhando destaque nos últimos anos, me parecem ter atingido um novo nível de potência e elegância. Trata-se, primeiro, de um Malbec da Almaúnica, bem brasileiro, sem aquele excesso de madeira e madurez que alguns vinhos argentinos apresentam – mas também sem aquele toque verdoso que outrora se encontrava por aqui. Que evolução!

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No final, para encerrar a degustação da ANV, veio uma amostra de Tannat, tal como tem aparecido nos últimos anos. Este ano, o produtor selecionado foi a Don Guerino, o que mostra que um número cada vez maior de vinícolas tem conseguido atingir níveis elevados de qualidade com essa uva. Foi o vinho que levou a maior nota de público e dos avaliadores (embora não a minha), com muita potência e uma capacidade de guarda que são de dar inveja.

… e boa continuidade

As duas amostras seguintes foram de Merlot, confirmando o apreço que os produtores brasileiros (e também nosso mercado consumidor) têm por essa uva. A primeira delas, da Casa Perini, surpreendeu pela elegância e foi, na minha opinião, a mais “pronta” das amostras tintas (ou seja: estava deliciosa). A segunda amostra veio da Miolo e ofereceu uma experiência bem diferente. No início, estranhei os aromas atípicos, mas depois entendi que eram atribuíveis a uma iniciativa louvável: utilizar, ao menos parcialmente, leveduras indígenas para a fermentação, o que produz notas menos padronizadas ou comerciais. Esse processo oferece um “senso de lugar” ao vinho. É um produto que precisa ser acompanhado, pois ainda estava muito potente e pode evoluir magistralmente.

Seguindo a vertente bordalesa, ouve mais dois vinhos de cepas francesas frequentemente plantadas na Serra Gaúcha. O Cabernet Franc da vinícola Giacomin estava ainda muito novo, mas que vinho! Já o Cabernet Sauvignon da Guatambu, que provavelmente também vai se beneficiar de alguns anos em madeira e garrafa antes de chegar ao mercado, mostrava um ataque potente e grande persistência. Foram, em resumo, belos vinhos ainda tem muito que entregar, mas que já mostram um potencial incrível.

Texto de Álvaro Lima (Movido a Vinho)

 

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